Uma nação de zumbis

By 25 de setembro de 2019Direito

Em nosso último texto, falamos sobre poderes reais, ou seja, aqueles que estão na sociedade e não necessitam de uma lei para reconhecê-los (de acordo com a visão do escritor e teórico alemão Ferdinand Lassalle). Para não ficarmos só na teoria sobre o tema, hoje vamos demonstrar como, na prática, o poder econômico estabelece as prioridades na nossa sociedade, consolidando a sua forma de pensar e valorizar as coisas.

Os mais antigos criticavam os livros e o rádio pelas rápidas mudanças de valores. Depois, o alvo foi o cinema, o teatro e a música. Hoje em dia, a televisão e a internet. Por isso, somos levados e crer que a comunicação de massa é o grande agente transformador da sociedade (tanto para o bem como para mal).

A comunicação é, sem dúvidas, muito importante, indispensável. Contudo, os meios de comunicação em uma sociedade de consumo dependem de patrocinadores – fato que é facilmente observado, pois todo o programa de televisão, peça teatral, apresentações musicais, filmes ou novelas são patrocinados. É só observar que filmes e novelas tornam-se referências em determinados hábitos: corte de cabelo, vestuário, linguagem, sexualidade, transporte, entre outros. Ou seja, são apresentadas situações à sociedade como se aquela fosse a correta, normal e o melhor exemplo a ser seguido.

É comum vermos nas ruas pessoas comportando-se e vestindo-se como personagens de filmes ou novelas. Ocorre que isso vai além do vestir ou das preferências musicais e estilos de vida de consumo. As mensagens chamadas “ideológicas” tomam conta das pessoas ao ponto de não sabermos se o que pensamos é realmente o que pensamos/acreditamos ou se pensamos o que os outros querem que pensemos.

Para tentar identificar o nível da manipulação ideológica, o primeiro passo é observar, com cautela, quem são os patrocinadores dos programas de rádio, TV, filmes e novelas. Normalmente, os bancos patrocinam eventos que passam muita alegria (como os esportes), buscando a confiança e a identificação. Grandes revistas patrocinam novelas onde o manequim é variado e assim sucessivamente com diversas outras marcas.

Bom, mas para além do costume e do consumo, existe um modo de pensar e de ver a vida que está presente em quase tudo o que vemos na mídia. Vejamos os filmes policiais americanos: não é a “instituição” polícia que funciona, mas um policial que, normalmente por vingança, mata muitas pessoas (e todas mereciam morrer). Um filme de guerra é sempre sobre o drama pessoal de alguém, nunca sobre as reais razões da guerra. E os incríveis filmes zumbis, mortos-vivos, o que significa isso? Os mortos-vivos somos nós, povo do amanhã? Vivendo por viver, apenas buscando alimento, sem vida?

Assim, os banqueiros, industriais e donos de grandes ‘magazines’ dominam o nosso viver, utilizando-se de uma forma de dominação inteligente e infalível, onde os explorados são os defensores dos valores e do modelo de exploração.

Na advocacia, não é diferente. O Poder Judiciário também está afetado por essa compreensão de mundo. Os juízes defendem os bancos e o grande comércio. Eu, Ricardo, que vivo a advocacia desde 1987 (32 anos), tenho visto uma transformação do Poder Judiciário que antes, quando a influência da mídia era menor, existiam juízes mais humanos e defensores dos hipossuficientes. Hoje o que vemos é o Poder Judiciário permitindo juros abusivos, não reconhecendo o dano moral dos bancos e atribuindo baixíssimas indenizações por dano moral, sob o falso argumento de não criar a indústria da indenização.

Assim, os poderosos, além do domínio natural, conseguem, por meio da comunicação de massa, criar uma ideologia onde os mais fracos defendem o poder dos mais fortes, aceitando isso como algo natural.

Será que existe uma saída? Ou seremos os zumbis?

 

Ricardo Silva

Sócio-advogado da Silva e Silva Advocacia