A falta de união gera um povo refém

O escritor alemão Ferdinand Lassalle, que viveu entre 1825 e 1864, escreveu uma obra muito interessante, de fácil leitura e entendimento, nomeada como Essência da Constituição, mas também conhecida como Poderes Reais da Sociedade. Foi uma obra polemica na época mas, como tantas outras teorias, não alcançou a unanimidade.

E por que fazemos referência a essa obra? Bem, passados mais de 150 anos, nela contêm aspectos políticos e jurídicos que permanecem atuais. Ferdinando escrevia que na sociedade da época havia poderes cuja a força não era necessária vir escrita em nenhuma lei, pois todos a reconheciam (como a força do Exército, o poder dos banqueiros, influências da religião, o poder do Rei e o poder do povo).

Na época, o mundo passava por um novo ciclo jurídico com o chamado Direito Positivo, ou seja, as leis escritas ganhavam importância no cenário social, substituindo o chamado direito natural ou do costume.

Quando paramos para pensar, percebemos que essa estrutura de poder não mudou muito. Quem duvida da força do Exército, do poder do dinheiro, da influência das religiões, do poder dos políticos influentes? Quase ninguém.

Mas, assim como na época, a grande questão hoje é saber como o povo poderia se constituir em poder.

Lassale dizia que o povo era o maior dos poderes, mas não conseguia se constituir desta forma, porque sempre dividia-se. Ou seja, não conseguia ter um objetivo comum (ao contrário dos outros poderes). O Exército tinha um foco quando agia, os banqueiros querem o lucro e estão unidos nisso, as religiões também tinham um único propósito. Já o povo não sabia exatamente o que queria. Uns achavam que eram banqueiros, outros se achavam militares e muitos se dividiam em credos e uma grande maioria queria ser Rei.

A ideia de Ferdinand Lassalle se propagou pelo mundo e muitas outras pessoas também passaram a ver a necessidade do povo ter foco para atingir o poder. Podemos dizer que na Europa e na própria Alemanha isso deu certo. Existem leis que já duram mais de cem anos, direitos que foram conquistados. E a democracia chegou muito perto ser uma realidade.

Mas como diz o ditado: “o que é bom dura pouco”.

Hoje, em quase todo o mundo, houve um retrocesso. O povo está ainda mais dividido, cada um com seu partido político e com a certeza de que está do lado certo. As religiões se dividiram e o lucro parece ser o objetivo da maioria.

E, como consequência desta divisão e das guerras ideológica, vem o aumento do domínio do poder. Torna-se cada vez mais fácil dominar e manipular o povo e, com isso, os poderosos continuam no poder (e o povo sendo explorado).

No Brasil, vivemos um momento onde a desorganização do povo chegou a níveis coloniais. Trabalhadores perdem direitos para poder manter o emprego, jovens estão condenados a trabalhar até morte sem aposentadoria, as privatizações concentram riqueza.

E, nesta semana, um novo golpe no povo: além de perder direitos trabalhistas e previdenciários, agora perde como consumidor. E por quê?

A SUSEP (Superintendência de Seguros Privados) editou uma portaria autorizando o uso de peças Genéricas e Usadas para consertar veículos sinistrados. Vejamos: o brasileiro já paga os carros mais caros do mundo e terá que concertar com peças usadas ou genéricas. É uma decisão completamente absurda e desleal, vindo de forma covarde em um momento em que o país passa por uma crise econômica e todos querem economizar de qualquer forma.

Mas e a nossa segurança? Quem confere a qualidade de peças genéricas? Quem atesta o nível de fadiga de peças usadas? A única resposta certa é que o lucro dos bancos que são donos das seguradoras vai aumentar novamente.

O roubo de veículos pode disparar, não existe como controlar a origem das peças e nem temos estrutura de fiscalização.

O Estado, que deveria ser o responsável pelo bem-estar do povo e garantir seus direitos, está nas mãos do banqueiros, militares e das religiões. Os políticos agem como reis, protegendo seus familiares e acumulando patrimônio as custas do povo.

E o povo? Será que consegue se unir e se enxergar como povo? Ou continuará se dividindo em ideologias, partidos, credos? Cada um de nós deve se olhar e se enxergar como povo. Perceber que a vida é curta e o tempo não para. Exigir mais respeito e buscar direitos.